samba-canção

Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone — taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

Ana Cristina Cesar

A teus pés, Global Brasiliense, 1993 – S.Paulo

a cara de quem levou tanta porrada

queria ter menos cara de quem levou tanta porrada

queria ter a carcaça mais fina

um olhar menos esperando o próximo soco

queria esperar menos o pior de tudo e de todos

queria a dissimulação de quem diz “não, obrigado”

a irrelevância de um estúpido “de nada”

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

queria ter a sofisticação de uma infância tranquila

a classe da despreocupação

de um fino vestido longo estampado

ajustado a uma pele branquinha e sem eczemas

a esguiez aristocrática de quem não conhece

o gosto do próprio sangue escorrendo nos lábios

nem do sufoco da espera lastimada

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

eu revido sempre

deixo cicatrizes nos outros

aguento bem o tranco

mas eu queria mesmo era

o silêncio de quem esvazia a mente

de quem carrega um sorriso histórico

covarde e vitorioso

de quem sempre vence

sem calejar os dedos

a elegância de quem não aguenta

10 minutos de briga na calçada

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

eu desfiguro sim

algumas dessas delicadezas

e não há nada de mais nisso

cumpro meu papel de

feliz guaipeca

outra porrada

guerreira, sobrevivente

mais uma porrada

duas dezenas na conta

outra porrada

sujeita histórica de si

a fisionomia popular

que pelos punhos dos murros

dos outros foi forjada

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada

 

eu sorrio cínica

não me abalo

com a boca sangrando

nunca peço desculpas

é tudo verdade

todos os absurdos que falam de mim

–  morreu, feriu, apanhou e nunca desculpou-se –

nada contra essa exatidão

mas eu só queria mesmo era sentar um pouco

com a luz do sol no rosto despejada

 

eu aguento, mas eu queria mesmo era ter

menos cara de quem levou tanta porrada.

 

 

itinerário

um trajeto de uma hora e meia

por uma cidade que deveria sorrir pra mim grátis

o passeio custa 4,25 para percorrer

uns poucos quilômetros

em sua pele

que me rejeita

eu tentei ser feliz nessa pele

não pude

é sempre uma paisagem impaciente

querendo que eu vá embora o quanto antes

como um motorista que não aguenta mais ouvir música

e ameaçou chamar a polícia

– chega de música, música chata!

eu dei umas moedinhas aos músicos

talvez devesse ter dado ao condutor

mas queria mesmo era dar um soco nessa cidade

uma cidade de muitos sobreviventes

poucos insultos, muito silêncio

nenhum inocente

puras baratas percorrendo as borrachas das janelas de vidro

 – more human than human –

buscando lixo, eu até fui feliz

neste casamento infeliz

traí muito essa cidade com outras

com cada usuário dessa rede de transporte

todos metropolitanos

formigas baratinadas da migração pendular

essa noite entravam e saíam

pelas portas automáticas

– que podiam muito bem ser

eu, ônibus pessoa barata –

mulheres voltando do trabalho

vendedores de enciclopédia

celulares segurando pessoas pelos botões

carícias cheias de espera em touch screen

um ex-seminarista olhando impacientemente o relógio

como quem matou alguém

e acabou de passar pela roleta

essa noite eu era aquela lotação

gritando por favor, furem minha catraca

mas todos quiseram pagar o lobby dos outros

eu cheguei ao destino insatisfeita

sem nenhum glamour

sorrindo aos clientes

preocupada em alcançar a meta

eu estava cheia, viajei em pé

reclamei sentada,

completei solitária

o itinerário

como a preguiça indo trabalhar contrariada

como quem ama de longe

um acinte por acidente

como quem conseguiu correr e alcançar

um ônibus sem cobrador.

 

 

quatro e meia da manhã

os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre

quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro
e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo
e
como algo esfaqueado e
cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

Bukowski, 2003.

 

 

Hapóre

Hapóre

Jaityvyrópaitéta oikóva’ekue, agante.
Jaityvyropaitéta
omanóva’ekue re’ongue
te’onguekuéra oñe’êta
omombe’úta hembiapokuéra
rohechaukata opío vera
Aníke ojukáva oimo’ãiti ombyaímaha tekove
¡Jaityvyropaitéta oikóva’ekue
Hapóre!

 

Implacablemente

Un día sacudiremos todo.
Sacudiremos
los huesos de los muertos
haremos hablar sus calaveras
desenterraremos sus hazañas
exhibiremos sus vergüenzas.
¡Nadie crea que con matar destruye!
¡Porque sacudiremos todo
implacablemente!

 

Carmen Soler/ Tradução de Jazmin Guttiérrez

Rachel Dolezal, Inês Brasil e eu

sempre a mesma coisa, mulher sofrida, negra, periférica, oprimida, não sabe nada sobre si mesma. é tão manipulada pelo que há de pior no mundo que a gente precisa evidenciar como a gente é inteligente e vê os mecanismos que a dominam e que ela jamais saberá, mesmo ela sendo ela mesma, há quase 50 anos.

Inês Brasil, por ser mulher, negra e pobre, é o personagem-seguro que o feminismo da boa consciência precisa para legitimar seu lugar, sua forma, sua necessidade de existir.

eu gosto tanto da Inês e já defendi tanto ela que nem tenho mais forças para entrar na discussão sobre o corpo dela.

perguntem pra ela.

fim.

eu estou interessada no que eu vou chamar aqui de “o corpo do poder”, o corpo da Rachel Dolezal, uma mulher estadunidense branca (na minha opinião) que “se fez passar por negra” por vários anos, que se casou com um homem negro (o que não significa nada), que era respeitada na sua comunidade negra, enfim. fico pensando como é possível forjar uma identidade (mas eu sei que brancos adoram fazer isso), se isso é possível de alguma forma, dentro de uma comunidade desta mesma identidade.

ouvi muitas vezes “um negro reconhece outro negro”, oras, um negro não reconhece outro negro? como podem se sentir enganados? me pergunto muitas coisas. como foi essa mentira? será que o marido se sentiu traído racialmente? será que a ama mesmo branca? ou mentirosa? será que a perdoou? e os amigos negros? ou a militância negra? complexo. vi a Whoopie Goldberg defendendo o direito dela de “ser negra, se quiser”, como vi outros negros dizendo que a Whoopie não os representam, enfim. um caldo imenso sem solução, como sempre – esses temas são assim mesmo – que uma mentira racista (ou racial?) me fez pensar.

a senhora Rachel agora propõe uma identidade “transracial”, mesmo sem ter um pingo de sangue negro no corpo (pode ser cinismo, eu acho ela bem cínica, apesar de não conhecê-la), usando como exemplo as identidades trans, que são outro saco de gatos, como tudo o que é humano.

segundo ela, uma pessoa poderia se identificar como negra, mesmo não sendo assignada biopoliticamente como negra ao nascer, olha a viagem! dá vontade de dar um soco na cara dela, né? mulher cínica, branca cis da porra! estou falando sério.

como acontece com as pessoas trans, que devem ter seu direito de auto identificação respeitado, ela diz ser afrodescendente. se ela é, ou não é, não me interessa, quem quiser determinar, que determine. eu pessoalmente prefiro ignorar as lógicas determinantes, principalmente de identidades. sou descendente direta de uma diáspora rejeitada, identidade pra mim sempre foi um tema nunca suficiente e nem resolvido, portanto, optei por ser mesmo mais um produto dessa ferida histórica que nunca cicatriza, muito branca, muito latina, muito brasileira, muito paraguaia. vou inventando os ancestrais que me tornam mais livre, este é o lugar onde consegui sentar por aqui e por enquanto está tudo bem, obrigada.

vamos ao que me interessa aqui, o racismo e a transfobia

a polícia é inimiga histórica das pessoas trans, como é das pessoas negras e se de um lado temos um apagamento histórico e uma patologização violenta das pessoas trans, aqui no Brasil pelo menos, temos quase 400 anos de escravidão que falam por si só, somos o último país a abolir e o que mais permitiu que isso ocorresse – acho que a gente precisa lembrar mais disso quando pensarmos sobre a violência no Brasil hoje, ela é histórica e matemática, não há segredos nem mistérios, o problema é claro, real e explícito.

eu entendo quando dizem que quem define o que é ser negro é a polícia. óbvio, são os negros os assassinados e presos diariamente no Brasil. mas, virando o espelho, será que é o que queremos mesmo, enquanto uma comunidade antirracista, que a polícia determine o que nós consideramos conceitualmente? é por este parâmetro que seguiremos definindo o nosso próprio conceito de raça? tomamos emprestado da polícia? do poder? que reivindicação é essa?

penso nos meus alunos negros. eles sabem o que é o racismo, eles sabem que sofrem racismo por serem negros, mas eu jamais vou dizer pra eles que eles são negros porque sofrem racismo. jamais vou adequar uma identidade à uma violência como pré-requisito, isso não tem cabimento nenhum e eu considero isso de um racismo feroz.

minha pergunta é, vamos conseguir combater o racismo usando o mesmo parâmetro racial da polícia? quando no debate sobre os turbantes uma pessoa diz que uma mulher branca não pode usar turbante porque “a polícia mata os negros”, isso não é uma resposta.

eu posso ser contra brancas usarem porque acho ridículo, porque historicamente as brancas sempre invejavam os cabelos e os turbantes das negras e as violentavam por isso, eu tenho mil motivos históricos para ser contra (e a favor também), mas a polícia não tem nada a ver com estes motivos.

penso que quando usamos o argumento “a polícia define quem é negro” é como se utilizássemos as determinações médicas para legitimar as identidades trans. a medicina, como a polícia, foi inimiga histórica também das identidades trans. não seria absurdo que o movimento agarrasse o panorama da própria cisgeneridade médica para definir o que é ser trans? a polícia é o cachorro louco da branquitude, serve a estes interesses, como então se basear nesse olhar para definir o MEU conceito de raça se sou antirracista? porque estou reproduzindo a noção do poder?

a polícia detesta os negros e as travestis, as travestis negras então, nem se fala. mas minha inquietação é, o que estamos fazendo com esses debates sobre identidades.

veja

definição:

pessoas trans são pessoas assignadas biopoliticamente a outro gênero com o qual não se identificam ao nascer. ok, há religiões e feministas que não as consideram dignas de sua identidade, nem de si mesmas, nem da vida, mas vocês sabem que eu não estou nem aí pra essas pessoas e acho que esse tipo de feminismo ou cristianismo transfóbico deve ser esmagado mesmo diretamente, sem espaço pra debates.

definição:

pessoas negras são… pessoas perseguidas pela polícia ???

isso me incomoda. o que a gente tá dizendo com esse argumento? isso é um argumento? se você não for perseguido pela polícia não é negro? não seria o contrário? ser perseguido por ser negro? onde foi que a gente inverteu a lógica?

eu acredito que ser trans, como ser negro, é poder ser muitas coisas e é a própria África que diz isso pra gente, todos os dias. a África brasileira mesmo. mas acho que o ponto é outro.

podemos ser muitas coisas.

penso que encarar. detonar, rir, desmontar, destruir, xingar e esmagar a cisgeneridade e a branquitude pode fazer a gente perguntar melhor sobre a transfobia e o racismo.

não perguntar o que é, mas como somos.

não olhem pra Inês Brasil com condescendência e pena

olhem com incômodo para Rachel Dolezal

olhem putos da cara pra mim

acabem comigo

esmaguem a branquitude e a cisgeneridade

e eu vou rir com os dentes quebrados e a boca cheia de sangue

junto com vocês

as pessoas cis merecem

os brancos merecem

estamos em plena guerra

DECLARADA

vamos acabar logo com isso.